A emoção nas cartas azuis

February 22, 2012

Uma dezena de cartas em papel azul

A Alice fazia uma seleção de fotos antigas, aqui na casa da praia, e se deparou com aquele pacote de cartas, em papel azul. Elas haviam sido recebidas da Alemanha onde morou a sua irmã, que escreveu as cartas. A correspondência data de dezessete anos atrás. Muita água rolou desde então. Viagem de volta ao nosso país. Reencontro com parentes e amigos. Amores feitos e desfeitos. E a autora, que estava por aqui, teve a oportunidade de reler o que escreveu. E eu pude registrar esse momento único. Ela, se reencontrando com as emoções vividas no seu passado. Uma experiência inigualável. Como seria bom se todos pudessem fazer o mesmo. Registrar, com emoção, o que pensamos e vivenciamos, colocar tudo em um envelope lacrado e só abrir daqui a vinte anos. Teríamos a oportunidade de, finalmente, nos convencer de que não existe verdade absoluta. De que nem tudo é tão feio como parece e que há males que vem para bem. Ou resumindo, como bem expressou minha amiga Marli: “Quando a vida lhe parecer amarga, dê uma mexidinha; pode ser que o açúcar esteja no fundo…” Ao reler as cartas azuis, minha cunhadinha Eliana sentiu arrependimento, por algumas coisas que deixou de fazer. Se alegrou por outras que, acertadamente, fez e concluiu que o que estava nas cartas azuis eram as emoções de uma vida que ela pensava que vivia, quando as escreveu. Uma ilusão, talvez, no julgamento de hoje. Mas o que é a nossa vida senão uma grande ilusão.

Um mar de sabedoria ou nem tanto

February 16, 2012

Que classe de guru você é?

Osho, um nome que não me sai da cabeça, enquanto observo o mar quebrar na areia da praia. Entre um pensamento e outro, avisto um par de siris, na sua labuta diária, na praia deserta. Mas, porque ela teria se encantado tanto com o Osho? Uma pessoa tão polêmica e cuja vida pessoal não tem nada de inspirador. E essa mulher, que o destino colocou sentada ao meu lado, no ônibus intermunicipal, qual seria a participação na minha vida? Porque à toa ela não estava ali! Isso eu sei de sobejo. Uma psicóloga terapêutica, com uma coletânea de graduações e uma fileira de anos de idade que ultrapassa a minha, não deveria se emocionar tanto com o famigerado indiano. Esse místico, que faleceu aos 58 anos em 1990, nunca me atraiu. Suas concepções de meditação, amor, liberdade e humor, são o básico de qualquer ensinamento esotérico e a única inovação que ele introduziu foi a permissividade no sexo e na violência. As extravagâncias de riqueza, exibidas na sua vida pessoal, também não combinam com a de um legítimo guru. Então, Dna Maria ou Ruth, sei lá como você se chama, o que tem de tão empolgante na obra de Osho? O sexo livre? Os siris prosseguem cavando a areia. E eu já me preparo para voltar para casa. Mas, o nome Osho continua na minha da cabeça. Ruth, gostei de você apesar do Osho. O livro que você insistia em me recomendar, não lerei, mas, ainda vou dividir aquele vinho com você celebrando os nossos oitenta anos. E quanto à celebração final dos cem, vamos deixar os médicos decidirem o que podemos tomar. Talvez um soro na veia.

A farofa na geladeira do João

February 10, 2012

Ele aguarda você na encruzilhada

O movimento foi rápido, mas, consigo revê-lo como se estivesse em câmera lenta. O cunhado segurando a panela com a farofa e se dirigindo para a mesa onde estava o seu prato. No meio do percurso, a panela escapa da sua mão e, feito pão com manteiga, vai ao chão – virada de borco. Na panela não sobra uma migalha. “Mulher, tem mais farofa em algum outro lugar?” A resposta vem em tom irônico “Veja lá na geladeira do João”. Explico. João é o caseiro e a sua geladeira é aquela cuja porta está amarrada com elásticos de bagageiro de moto. Uma coisa muito prática, dizem. Desse jeito, ela fica, “hermeticamente”, fechada, o tempo todo. Numa atitude muito ecológica, aliás. Não precisa dizer que não havia mais farofa a não ser aquela que, ainda, estava lá no chão. E essa, por sinal, já tinha dono – era do Exú da encruzilhada que veio buscar a sua parte já que ninguém havia deixado nada para ele lá na bifurcação da estrada. Então, desse episódio ocorrido na praia, aprendi algumas lições: primeiro – é sempre melhor levar o prato até a panela e não o contrário (sabe aquela coisa de arrastar o banquinho e não o piano); segundo – ao preparar uma iguaria igual aquela farofa, é sempre bom reservar uma parte para o João, antes de qualquer coisa e terceiro – o Exú da encruzilhada não deve ser esquecido, em hipótese alguma.

O drama de cada um

January 24, 2012

Rezar mais, garoto!

O que acontece quando você erra feio, prejudica seu time e tem milhões de pessoas, em todo o mundo, olhando o que você fez? Acabou de acontecer em Old England – EUA. O “kicker” Billy Cundiff, do Baltimore Ravens, errou um “Field Goal” de 30 jardas, quando restavam apenas onze segundos no relógio do jogo e seu time perdia por três pontos. Isso é equivalente a chutar para fora uma penalidade máxima, sem goleiro no gol, a um minuto do final, na decisão do campeonato, com o jogo empatado. Uma coisa ridícula. O mundo inteiro assistia à partida que valia o campeonato da liga AFC e uma vaga no Superbowl  deste ano. Aquilo não podia acontecer. Mas, aconteceu. É o drama de cada um. Há uma frase no nosso futebol que ficou famosa: “O pênalti é tão importante que deveria ser batido pelo presidente do clube.” Mas, cabe ao jogador carregar essa responsabilidade. Imagine se um Presidente vai correr esse risco? Todos os psicólogos deste mundo estão arriscando palpites no que teria acontecido com o “kicker” Cundiff. Não é a minha praia, mas, vou arriscar uma explicação. O jogo era no campo do adversário Old England, portanto, a torcida era contra. Fazia frio. Todos estava lá há mais de quatro horas. Se a bola entrasse, tudo iria para uma prorrogação. Muito cansaço, até da parte dos juízes. O sentimento geral era “vamos acabar logo com isso e vamos embora pra casa tomar uma…” E foi aí que Deus concordou: “Boa idéia, filho! Vamos acabar logo com isso que temos mais o que fazer”. Cundiff, esse foi o seu drama, quem mandou rezar pouco!

Sonhei com uma linda nuvem branca

January 11, 2012

Branca. Bem branquinha!

“Mon petit eleve, quels sont les couleurs de drapeau de France?” Indagava o memorável professor Otávio. A resposta tinha que vir pronta: “Ils sont Le Bleu, Le Rouge et Le Blanc”. E essa cor branca, aprendi, desde cedo, tinha sua origem na Flor de Lis, adotada pela França como marca Real. Assim, o branco da bandeira francesa representa sua realeza, sua monarquia. E a minha tia dizia: “menino, quero essas claras bem batidas – em neve branca…” E a neve é mesmo branca. Quando ela fazia balas de coco, começava com uma calda incolor. Logo depois, vinha uma sessão de puxamento e enrolamento, e a calda esbranquiçava e assumia a característica final – branca e deliciosa! O mesmo acontecia com a sua Maria-mole. Branca e gostosa, ao final. Aprendi, então, desde cedo, que as coisas boas eram brancas. As coisas puras também. Branco é o véu da noiva e branca é a túnica dos anjos. Assim como branca é a espuma do mar e como brancas são as nuvens do céu. Encostei a cabeça no travesseiro, revestido com uma fronha branca, e adormeci. Sonhei com uma nuvem branca, branquinha. O homem costuma sonhar com o que deseja e não possui. Nisso somos todos iguais. Nos sonhos, eu sou como você. No entanto, aprendi, também, que não devemos nos limitar a sonhar. Devemos, isto sim, tirar do que temos o que queremos e não possuímos. “Querida, por favor, vista hoje para mim aquela camisola branca, branquinha…”

Hoje é Dia de Reis

January 6, 2012

Gaspar, Melchior e Baltasar - os Reis

Em seis de Janeiro, os Cristãos comemoram a visitação de Jesus por três reis Magos. Portanto, hoje é dia de Reis. Em alguns países a troca de presentes é feita hoje e não no vinte-e-cinco de Dezembro. E seria bom se dividíssemos em duas datas. Alguns presentes no Natal e outros no Dia de Reis. Um panetone no Natal e outro no Dia de Reis, e assim por diante. Os reis seriam Magos. Ou seja, dominavam uma certa magia e através dela souberam do nascimento do Messias. Ao chegarem à terra de Jesus foram procurar a Herodes, governante local, como prega a diplomacia. Indagaram a Herodes onde estava o menino. Este, respondeu: “Boa pergunta. Que menino?” E os reis, então, tiveram ciência de que se tratava de um sem noção e resolveram procurar por sua própria conta. E logo O encontraram, pois, tinham uma estrela guia para direcioná-los. Deram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, na volta, nem contaram ao governante local onde estava o menino, pois, como eram magos, tiveram um sonho revelador de que Herodes pretendia matar a Jesus. E essa história encerra algumas verdades que são eternas sobre Magos. Magos são ricos e generosos. Magos não precisam de GPS. Magos entram nas terras alienígenas e andam por toda parte, como se fossem suas. Magos sabem de tudo. Magos não estão nem aí para com os governos constituídos. Magos mentem aos governantes se acharem necessário. Sabem de uma coisa, gostei desses Magos.

Jogo de Palavras no final de 2011

December 29, 2011

Letrinhas perigosas

Disse à mulher que mora aqui ao lado, da casa da praia: “é bom você ir, pois, a chuva se avizinha”. E por falar dela, todos afirmam que agora virou uma “tranqueira”. Aprendeu com a sobrinha e ficou viciada em jogar Tranca pela Web. Como se vê, tudo não passa de um jogo de palavras. O caseiro do meu cunhado esteve por aqui. Quando indagado pela cunhadinha, respondi: “Ele já foi-se”. E aí o meu corretor ortográfico reclamou – o advérbio “já” atrai o pronome “se” e o certo é se dizer  “Ele já se foi”. Verdade. Mas, se assim fosse, eu não teria explicado o que ele veio fazer aqui que foi buscar seu instrumento de corte para podar o matagal. Sacou? A outra cunhada veio se despedir de mim. Não vai passar o ano com a gente. “Cunhada, porque não veio c’zinho”. Zinho é o nome pelo qual é conhecido o marido dela. Todos estão dizendo que devo dar uma pintada aqui na casa da praia, ainda, antes do final do ano. Então, vou à farmácia pegar o remedinho da disfunção. Jogo de palavras. Entendeu? Então, desde já, uma feliz entrada em 2012, nos outros anos desta década e em todos os anos das outras. Falei.

A não pertinência dos Zumbis urbanos

December 26, 2011

O celular é uma fuga

Eles estão por toda parte, nesta época do ano, principalmente.  Estão nos saguões dos aeroportos, nas rodoviárias, nas estradas congestionadas. São aquelas pessoas que estão, mas, não pertencem a esses não lugares. Querem sair dali o mais rápido que puderem. Estão sempre ao celular, falando, com pessoas que estão em outros lugares, onde gostariam de estar. Ou, estão blindadas com seus fones de ouvido, distantes no tempo e no espaço. São os chamados zumbis urbanos. Mal sabem eles que, nesses momentos de espera, tem uma oportunidade inigualável de estar sós consigo mesmos. Onde poderiam colocar em dia aquela conversa íntima. Onde poderiam resolver aquelas pendências antigas. Porque, todos temos muito a conversar com nossos eus. Dentro de nós existe um Deus. E é fácil conversar com Ele, basta um momento de solidão. E quando a vida lhe oferece essa oportunidade vocês fogem para um outro lugar. Depois, pagam custosas aulas de meditação transcendental para aprender, exatamente, a fazer esse diálogo. Oh! Incorrigíveis zumbis, destas nossas cidades, caiam na real.

O Blaser ficou pronto e agora José?

December 17, 2011

O Blaser azul ficou lindo!

Companheiro inseparável das últimas semanas, o Blaser é, agora, um trabalho que não consegue mais se espichar. Ficou pronto. O projeto deu lugar ao real. Azul Real. Experiência única que nasce no insondável escuro da ignorância. Não sabia fazer um blaser. Tinha muito que aprender, a ensaiar, a ousar. Agora já não tenho. Dizem que o gênio gasta trinta por cento do tempo desenvolvendo o projeto e os outros setenta por cento admirando a obra realizada. Feito um Narciso à beira do lago. Não sou gênio, então, inverto a equação. Mas não abro mão desses trinta por cento de êxtase. Foi admirável. Muito bom enquanto durou. Mas, como diria Carlos Drummond, o poeta: “E agora José?”

Diante da pia batismal o padre indaga: “e qual é o nome da criança?”.” É Nabucodonosor”, responde o pai com uma ponta de empáfia. Seguindo, o padre, com um ar de espanto, retorquiu: “mas isso não é nome de Cristão! Não vai poder…” E, então, o meu tio e padrinho Joaquim, também conhecido como Quinzoca, interveio: “eminência, o garoto já está registrado no Cartório e o nome é esse que o Senhor ouviu…” O sacerdote, com a paciência de um Jó, recomenda :”Vamos batizá-lo como José. Foi um grande Santo…”.

A costura é uma terapia. Se você é controlado e tem paciência. Se é irascível, se transforma em um tormento. Lembro-me que, quando criança, um vizinho alfaiate atirou uma manga de paletó por sobre o muro de casa. Não conseguia ajustá-la ao resto. Não cheguei a esse extremo de fúria. Mas, beirou. Agora tudo está pronto. Tenho, ainda, umas duas semanas para gastar em 2011. E agora José?

“E agora, José?/ A festa acabou,/ a luz apagou,/ o povo sumiu,/ a noite esfriou,/ e agora, José?…”

“…Sozinho no escuro/ qual bicho-do-mato,/ sem teogonia,/ sem parede nua/ para se encostar,/ sem cavalo preto/ que fuja a galope,/ você marcha, José!/ José, pra onde?”

O Tempo e nossas vivências

December 14, 2011

Viver o aqui e o agora

Pablo Neruda disse: “Saudade é o inferno dos que perderam/é a dor dos que ficaram para trás/é o gosto de morte na boca dos que continuam…” Ouço no rádio a comentarista Inês de Castro explicar os diversos tipos de vivência do passado: ”O saudosismo – o culto às coisas do passado, a nostalgia – saudades de um tempo vivido, frequentemente, idealizado e irreal e a melancolia – tristeza vaga e indefinida, quase sempre ligada a um passado que foi muito melhor do que é hoje o presente de uma pessoa.” Esta última, a melancolia, já um comportamento patológico, levou muita gente à morte. Devemos viver o presente, reverenciar o passado e sonhar com o futuro. Isso é saudável. Mas, nem todos concordam. Os adeptos da cientologia, religião chamada das estrelas, já que enumera: John Travolta, Tom Cruise, Michael Jackson, Juliette Lewis, Anne Archer e Lisa-Marie Presley, entre seus seguidores; prega um desapego ao passado. Segundo eles, o passado, costuma nos assombrar com lembranças de mágoas, fracassos, remorsos e outras “cositas más”. E essas lembranças nos impedem de ser super homens, dizem. E as estrelas despendem verdadeiras fortunas para resolver as coisas que ficaram sem solução no passado ou, na impossibilidade, para apagar, de uma vez por todas, esses maus pensamentos. Então, amigos, já que não temos essa grana toda, vamos tentar nos lembrar apenas daquilo que nos trás reforço na nossa auto-estima, vamos viver, intensamente, o presente e vamos visualizar, para o futuro, tudo aquilo que nos tornará uma pessoa melhor e mais feliz. Tudo no seu devido tempo e dentro das nossas possibilidades reais.


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